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Guia · Memórias

Como escrever um livro de memórias: o que contar e o que deixar de fora

Para escrever um livro de memórias, você não precisa contar a vida inteira. Precisa escolher um recorte: uma fase, uma relação, uma virada. Depois, lembrar com detalhe, decidir o que fica de fora e dar ao texto uma ordem que faça sentido para quem lê, e não só para quem viveu.

É um trabalho de escolha antes de ser um trabalho de escrita. Dá para fazer sozinho, ao longo de meses, ou com alguém que entreviste você e escreva por você. Este guia mostra como fazer essas escolhas e conta como eu faço esse trabalho no livro de cada autor.

O que é um livro de memórias?

Livro de memórias é um relato em primeira pessoa sobre uma parte da própria vida, escolhida pelo sentido que ela tem, e não pela ordem em que aconteceu. Ele não precisa começar no nascimento nem terminar no presente. Começa onde a história que você quer contar começa.

Alberto da Costa e Silva, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras, explica a diferença num texto para o Sesc São Paulo: a autobiografia se apoia em documentos e segue a cronologia; o livro de memórias é mais livre, revive o passado como ele volta à cabeça de quem lembra e serve também como testemunho de uma época.

Um exemplo brasileiro ajuda a entender o gênero. Pedro Nava, médico, publicou Baú de Ossos, o primeiro dos seus livros de memórias, em 1972, com 69 anos (dados biográficos). Ele não esperou ter uma vida famosa. Esperou ter o que dizer sobre a vida que teve.

Qual a diferença entre livro de memórias, autobiografia e biografia?

As três palavras se misturam nas conversas que eu tenho com quem quer um livro. A tabela separa o que cada uma é:

TipoQuem contaO que cobreQuando faz sentido
MemóriasVocê, em primeira pessoa (sozinho ou com um ghostwriter escrevendo na sua voz)Um recorte: uma fase, um tema, uma relaçãoQuando a história tem um fio forte e não precisa de tudo o que veio antes e depois
AutobiografiaVocê, em primeira pessoaA trajetória do começo até hoje, em ordemQuando a vida inteira é a história: uma carreira longa, uma empresa fundada do zero, uma família que quer o registro completo
BiografiaOutra pessoa, em terceira pessoa, com várias fontesA vida de alguém, com entrevistas de quem conviveuQuando a história é de outra pessoa: o pai, a avó, quem fundou o negócio

Na prática, muita gente me procura pedindo uma "autobiografia" e, depois da primeira conversa, descobre que quer um livro de memórias. A diferença muda tudo: o tamanho do livro, o número de entrevistas e, principalmente, o que fica de fora.

Por onde começar: como escolher o recorte?

Comece respondendo três perguntas, nessa ordem:

  1. Que pergunta o seu livro responde? "Como eu saí daquela cidade e cheguei aqui?" "O que a doença da minha mãe me ensinou?" "Como a empresa quase fechou e não fechou?" Se a pergunta cabe numa frase, o livro tem recorte.
  2. Para quem você escreve? Filhos e netos pedem um livro. Clientes e colegas de profissão pedem outro. O leitor define o que precisa ser explicado e o que pode ser só sugerido.
  3. Que fase da sua vida mudou a forma de ver as outras? Essa fase costuma ser o centro do livro. O resto entra como antes e depois dela.

Na primeira entrevista, eu não peço a história inteira em ordem. Eu peço duas cenas: a que a pessoa mais conta e a que ela nunca contou para ninguém. Entre essas duas quase sempre está o recorte do livro. A primeira mostra como o autor se vê. A segunda mostra o que ele ainda não resolveu. É aí que o leitor vai se reconhecer.

O que entra no livro e o que fica de fora?

A regra que eu sigo em todo livro: contar menos episódios, com mais profundidade. Um livro de memórias com cinquenta episódios de meia página cansa. Um com doze cenas bem contadas prende.

Para decidir se uma lembrança entra, faço um teste simples: essa cena muda quem conta ou muda quem lê? Se não muda nenhum dos dois, ela vira uma linha ou sai. Isso vale até para os momentos de orgulho. Prêmio, cargo, diploma e viagem são currículo. Currículo informa, mas não emociona. O que emociona é a noite antes do prêmio, a conversa que antecedeu o cargo, o que você fez com o diploma na mão.

Imagina um autor que passou vinte anos numa mesma empresa e quer registrar isso. Se o livro listar os cargos, ano a ano, ninguém da família vai ler até o fim. Se o livro contar a semana em que ele quase pediu demissão e por que ficou, a família vai entender quem ele é. Transformar currículo em história é parte do meu trabalho em cada capítulo.

Como lembrar de detalhes que você acha que esqueceu?

Ninguém se lembra de tudo de uma vez. As memórias precisam ser despertadas, e isso tem método:

  • Pergunte pelo concreto, não pelo geral. "Como foi sua infância?" trava qualquer pessoa. "O que tinha na mesa do café da manhã na casa da sua avó?" abre uma porta. Atrás do cheiro do café vem a cozinha, atrás da cozinha vem a avó, atrás da avó vem a história.
  • Use objetos, fotos e lugares. Uma foto antiga responde perguntas que a memória sozinha não alcança: quem estava lá, que roupa usava, que ano era.
  • Converse com quem viveu junto. Irmão, cônjuge, amigo de infância. Eles lembram de outra parte da mesma cena e corrigem datas.
  • Volte ao assunto em dias diferentes. O que não veio na terça vem na sexta, no banho, no trânsito.

É por isso que, no meu processo, as entrevistas por vídeo não são a única fonte. Entre uma conversa e outra, o autor me manda áudios pelo WhatsApp com o que lembrou depois. Esses áudios costumam trazer os melhores detalhes do livro, porque vêm sem a pressão da entrevista. E nada do que o autor me conta se perde: eu transcrevo tudo e trabalho em cima da fala dele, não de um resumo.

Como organizar os capítulos de um livro de memórias?

A ordem não precisa ser a do calendário. Pode ser por tema, por pessoa, por lugar, ou pode ir e voltar no tempo, desde que o leitor nunca se perca. O que não pode é enfileirar fatos. Um capítulo que só lista o que aconteceu, mesmo com todos os fatos corretos, ainda não é capítulo. É anotação.

No livro de cada autor, eu aplico a mesma estrutura em todos os capítulos:

  1. O primeiro parágrafo retoma a última imagem do capítulo anterior, para o leitor não sentir o corte.
  2. O capítulo apresenta o tema antes de entrar nas cenas.
  3. Poucas cenas, contadas por inteiro: lugar, pessoas, o que foi dito, o que se sentiu.
  4. Entre uma cena e outra, uma ponte, para que elas não fiquem soltas.
  5. A voz de quem conta hoje liga o que viveu ao que entendeu depois. É essa voz adulta que transforma lembrança em livro.

Essa costura interpreta e conecta, mas não cria. Nenhuma cena, fala ou detalhe entra no livro se o autor não contou. Quando uma frase minha dá à história um sentido que o autor ainda não disse com aquelas palavras, eu marco e pergunto. A decisão é dele.

Posso escrever sobre pessoas reais?

Pode, e um livro de memórias quase sempre precisa. Mas com cuidado. No Brasil, o Código Civil, no artigo 20, prevê que a divulgação de escritos e o uso do nome ou da imagem de uma pessoa podem ser proibidos a pedido dela, se atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, salvo autorização ou outras exceções da lei. Isso não impede você de contar a sua história. Pede que você conte com responsabilidade.

Na prática, quatro cuidados resolvem a maior parte dos casos:

  • Conte do seu ponto de vista. "Eu me senti abandonada" é memória sua. "Ele me abandonou de propósito" é acusação.
  • Separe fato de interpretação, e deixe claro no texto o que é cada um.
  • Mude nomes e detalhes de quem não é essencial para a história.
  • Em trechos delicados, que envolvam acusação, doença, dinheiro ou crime, converse com um advogado antes de publicar.

Nos meus livros, quando um trecho expõe alguém de forma sensível, eu sinalizo para o autor antes de fechar o capítulo. Nenhuma passagem assim fica no livro sem que ele tenha decidido, com consciência, que ela fica.

E se eu não tiver tempo, ou não souber escrever?

Esse é o caso da maior parte das pessoas que têm uma história boa. Elas sabem contar, mas não têm meses livres nem técnica para transformar a fala em livro. Há dois caminhos.

O primeiro é escrever sozinho, aos poucos, aceitando que vai levar tempo e que o texto vai precisar de revisão profissional no fim. Funciona para quem gosta de escrever e tem paciência com o processo.

O segundo é contratar um ghostwriter: alguém que entrevista você, organiza o material e escreve o livro na sua voz. O livro continua sendo seu, com o seu nome na capa, e isso é legal e comum no mercado editorial. É o que eu faço. O processo começa pelas entrevistas por vídeo, passa pelos áudios, pela escrita capítulo a capítulo e pela sua leitura de cada versão, até o livro ficar pronto para publicar, em torno de quatro meses. Se quiser entender melhor o que faz um ghostwriter ou quanto custa fazer um livro de 200 páginas, esses dois textos explicam. E se você mora fora do Brasil, o processo é o mesmo: todo online, como eu explico aqui.

Seja qual for o caminho, comece pelo recorte. Uma vida inteira é grande demais para caber num livro. Uma história bem escolhida cabe, e fica.

Se você tem uma história e não sabe por onde começar, vamos conversar.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre livro de memórias e autobiografia?

A autobiografia conta a trajetória inteira, do começo até hoje, em ordem cronológica. O livro de memórias escolhe um recorte, como uma fase, uma relação ou uma virada, e organiza o texto pelo sentido, não pela data. Os dois são escritos em primeira pessoa.

Preciso ter uma vida extraordinária para escrever minhas memórias?

Não. O que faz um livro de memórias funcionar é o recorte e a profundidade das cenas, não a fama de quem conta. Uma história comum, contada com detalhe e honestidade, prende mais do que uma lista de feitos.

Quantas páginas tem um livro de memórias?

Não existe regra. O recorte define o tamanho. Nos livros que eu escrevo com os autores, o manuscrito fica em torno de 200 páginas, o suficiente para contar uma história com profundidade sem cansar quem lê.

Posso mudar nomes das pessoas no meu livro de memórias?

Pode, e é recomendável para quem não é essencial à história. Em trechos que expõem alguém de forma delicada, conte do seu ponto de vista, separe fato de interpretação e, se houver acusação ou assunto sensível, consulte um advogado antes de publicar.

Quanto tempo leva para escrever um livro de memórias?

Sozinho, costuma levar meses ou anos, porque a escrita disputa tempo com a vida. Com um ghostwriter, o processo tem prazo: no meu trabalho, das entrevistas ao livro pronto para publicar, leva em torno de quatro meses.

Um livro de memórias escrito por ghostwriter continua sendo meu?

Sim. A história, as lembranças e a voz são suas; o ghostwriter entrevista, organiza e escreve. O livro sai com o seu nome na capa, e essa prática é legal e comum no mercado editorial.

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